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Cata-Ventos: Sobre os (infernais) paraísos do Panamá

Costa Alves - 14/04/2016 - 11:30

Valha-me Deus, o deus dinheiro tomou conta do mundo. Eu já desconfiava e o leitor pode confirmar que os “Cata-Ventos” já vinham apontando há muito nessa direção. Mas agora está preto no branco, está pão-pão, queijo-queijo.

Ora vejam que até o primeiro-ministro da Islândia foi apanhado com o microfone na botija e, claro, a pressão popular obrigou a que saísse. A pressão popular, sublinho. Isto, na santa Islândia que resistiu a tantas armadilhas com que o deus dinheiro quis vergar o país. Mas, por enquanto, entre os poderosos de todo o mundo apontados a dedo, nenhum saiu.

Do Putin, toda a gente sabia que a coisa já fizera caminho com um tal Boris Ieltsin a distribuir as riquezas da Rússia pela sua corte. Riquezas que, de tão obesas, se abalançaram a compras multimilionárias por essa Europa e restante planeta do futebol que está fartíssimo de ver os chutos da UEFA e da FIFA em bolas enlameadas.

Eu vinha avisando mas bem via soltarem-se reticências ou silêncios ruidosos quando tal dizia. Confesso que me senti ressuscitar, há uns dois ou três anos, quando vi e ouvi o Papa Francisco utilizar, com todas as letras e sentidos, a expressão que há muito me vinha saindo como síntese para qualificar o que vai no mundo. Justamente: deus dinheiro.

Convenhamos. A conversa da globalização era sobre como este demónio desbravava os caminhos que lhe faltavam para chegar ao reino do mundo. Calavam-nos com os benefícios da Internet de que precisavam, enquanto multiplicavam os (infernais) paraísos fiscais a que chamam “off shore”, fora da praia, longe da vista e sem coração com o Dom Dinheiro a circular à velocidade de uma luz tenebrosa.

            Já sabia que somos governados pela lógica do quem mais dinheiro tem, mais quer e, sejam quais forem os meios e os métodos, misturam tudo nos mesmos alçapões: fuga a impostos, lavagens assassinas de droga, tráfico de armas e de pessoas e de tudo o mais que esteja a dar.

Até gente que nos tinha transportado para formas novas e criadoras de ver o mundo, como Pedro Almodóvar, um dos mais premiados realizadores da história do cinema, se deixou apossar pelos demónios expelidos pelos vulcões deste deus dinheiro. No mínimo, espero que esteja “à beira de um ataque de nervos”, como as mulheres que gerou em filme. Imperdoavelmente, o criador não seguiu os ditames éticos da sua criação.

"Já sabia que somos governados pela lógica do quem mais dinheiro tem, mais quer"

Já nem falo de outros multimilionários modelos das nossas idolatrias, chamem-se Messi ou outros nomes sonantes ou ressonantes, como presidentes de repúblicas, um rei e uma tia de rei, primeiros-ministros, atores de cinema, empresários, banqueiros, gestores, políticos no ativo e no passivo, familiares, “boys” e “friends”, misturados com encartados traficantes, corruptores e corrompidos, contrabandistas de toda a espécie. Toda esta gente que a (in)cultura das nossas sociedades coloca em tronos de devoção.

E, notem, isto apenas veio do que estava numas caves apartadas no Panamá. O que mais não seria (será?), se viéssemos a conhecer o que vai nas redes de milhares de outras caves apartadas neste vasto mundo.

Recordo a sátira de Francisco de Quevedo ao “poderoso cavaleiro Dom Dinheiro” que também conhecemos na versão popularizada pelo canto de Paco Ibañez: “Madre, yo al oro me humillo;/ él es mi amante y mi amado,/ pues de puro enamorado,/ de continuo anda amarillo.” Lá do fundo dos tempos, o Eclesiastes bem nos avisava: “O mero amante da prata não se fartará de prata, nem o amante da opulência, da renda.”

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