Foto arquivo Reconquista
Metade dos peixes que vivem no rio Tejo são espécies exóticas e a tendência é que estas aumentem o seu domínio nos próximos anos, pondo em causa as espécies tradicionais que sustentam a economia e a cultura gastronómica relacionada com o peixe do rio. O alerta é deixado pelo investigador Filipe Ribeiro, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que faz parte de uma equipa está há um ano a estudar e a tentar encontrar soluções para diminuir o impacto de espécies como o siluro, que é neste momento umas das maiores ameaças naturais que o Tejo enfrenta. Esse trabalho foi dado a conhecer na Jornada Técnica e Científica de Peixes do Rio, organizada pelo Núcleo de Estudantes da Escola Superior Agrária de Castelo Branco.
O Projeto Life-Predator, que envolve investigadores de Portugal, Itália e da República Checa e que tem a Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão e a Conserveira do Interior entre os seus financiadores, tem promovido ações de formação com agentes de vigilância e pescadores e pescas demonstrativas com identificação das espécies, um trabalho que se vai estender por três anos com mais dois para avaliar o impacto que terá. Filipe Ribeiro está consciente que “a erradicação do siluro no troço principal do rio Tejo não é possível, uma vez que existe desde a parte mais a montante em Espanha até a jusante na zona do Carregado (Alenquer), com dezenas de milhares de siluros neste rio”, podendo até concluir que todo este esforço não resultou. Mas acredita que é possível criar ferramentas de controlo populacional através do estudo do comportamento deste peixe, que pode viver cerca de 70 anos e comer diariamente o equivalente a um por cento do seu peso, o que não é pouco tratando-se de um peixe que pode atingir os 120 quilos. Os cientistas perceberam que o siluro está a adaptar-se facilmente ao ecossistema e a interiorizar os hábitos dos peixes que vivem há mais tempo no rio, aumentando assim a sua eficácia enquanto predador. Neste momento consegue perceber o comportamento dos barbos que migram das albufeiras para as linhas de água que as abastecem, fazendo esperas para os caçar. Cansados da subida do rio, os peixes acabam por sucumbir à armadilha.
Filipe Ribeiro diz que a cada ano que passa “é mais um por cento de peixes exóticos ou invasores e menos um por cento de peixes nativos, ou seja, nós estamos a perceber esta biodiversidade única no rio Tejo”. Em 1985 as espécies exóticas constituíam apenas 10 por cento da fauna piscícola do rio.
Através de um outro projeto que estuda o siluro, o megapredator, foi possível avaliar o que continha o estômago deste predador. O que não foi fácil, uma vez que “começamos a reparar que mais de metade dos siluros que nós apanhávamos tinham os estômagos vazios”. O siluro é um peixe nervoso que vomita quando em stresse, o que dificulta esta análise. Mas mesmo assim foi possível identificar 13 espécies através de uma observação simples do estômago, um número que subiu para as 23 com uma análise mais fina, sendo que entre estas se encontrava uma grande proporção de espécies migratórias.
Os investigadores marcaram mais de uma dezena de peixes no rio Ponsul, com uma marca amarela e um dispositivo eletrónico para conseguirem identificar o comportamento no rio. Caso algum pescador encontre estes peixes pedem que os devolvam à água. A marcação vai continuar em dezembro, seguindo-se uma avaliação da situação nas albufeiras. Na próxima primavera contam iniciar as ações de remoção de siluros, que se irão repetir até 2026.