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Universidade Politécnica: Avançar com ambição

António Fernandes* - 03/09/2026 - 9:00

A ideia de se pensar uma Universidade que sirva toda a Beira Baixa, como o IPCB fez ao longo de 45 anos, tem potencial, é inteligente e feliz, e tem tudo para ser consensual (...)

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A possibilidade de adoção da designação Universidade Politécnica por todos os Institutos Politécnicos representa um marco para o ensino superior português e reforça claramente a responsabilidade das instituições. A Lei n.º 32/2026, de 20 de julho, consagra esta designação às instituições politécnicas que cumpram elevados padrões de qualidade científica, pedagógica e institucional, avaliados independentemente pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). Se inicialmente se temia que algumas instituições pudessem ficar para trás nesta viragem verdadeiramente marcante, todas adotaram a nova designação no dia 01 de agosto de 2026. Umas reuniam condições em 2023 quando teve lugar a avaliação da A3ES. Outras, corrigiram, melhoraram processos, e passaram a cumprir os requisitos.

A Lei n.º 32/2026, de 20 de julho é muito mais que o reconhecimento merecido pelos Institutos Politécnicos face ao inegável percurso de crescimento, qualificação e afirmação construído ao longo de décadas. É, fundamentalmente, uma oportunidade para cada instituição refletir o lugar que pretende ocupar no seu território, sem descurar a sua ambição nacional e internacional.

Na avaliação institucional realizada em 2023, o IPCB foi avaliado sem condições pelo período máximo de acreditação. A A3ES considerou ser o IPCB uma instituição ativa, dinâmica, e viva, com recursos humanos capazes de promover e fortalecer sinergias internas e externas, locais e regionais, nacionais e internacionais, e empenhada em cooperar com o poder político local, instituições sociais e culturais, organizações empresariais e outras instituições de ensino, promovendo o crescimento científico, técnico, artístico, cultural e cívico dos jovens e dos adultos que procuram a Instituição.

Desde 2023, o IPCB prosseguiu esse percurso de afirmação. Reforçou mais ainda a capacidade científica e pedagógica, alargou a oferta formativa, aumentou a participação em projetos de investigação e inovação, aprofundou a ligação às organizações da região, investiu na modernização das infraestruturas e consolidou a sua projeção nacional e internacional. Em 01 de agosto de 2026 passou a adotar a designação de Universidade Politécnica.

Há momentos na vida das instituições em que se deve olhar para trás. Não por nostalgia, mas para melhor se perceber a dimensão do caminho percorrido. E há momentos em que esse olhar só faz verdadeiramente sentido se servir para, no presente, se pensar e

preparar o futuro. O momento presente deve ser sobretudo assumido como um ponto de partida.

Certo é, que a alteração da designação de Instituto Politécnico para Universidade Politécnica não é, por si, suficiente para que a instituição produza mais conhecimento, mais inovação ou atraia mais estudantes. Os resultados generosos da 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso (CNA) de 2026 para todas as instituições foi fundamentalmente devido à alteração ocorrida este ano nas regras de acesso ao ensino superior, com a reposição de apenas uma prova de ingresso. A alteração da designação poderá ter tido alguma influência no crescimento no número de colocados, mas, provavelmente, muito ténue, tendo em conta que os estudantes submeteram a sua candidatura ainda antes da mudança do nome das instituições.

O número de estudantes nacionais que as Universidades conseguem atrair resulta muito da afirmação territorial das instituições. Num território regional que enfrenta desafios económicos, sociais e demográficos particularmente exigentes, a missão da Universidade vai muito além do ensino que ministra e dos estudantes que atrai. A criação de conhecimento e emprego qualificado, a promoção da inovação, a capacidade de abrir novas oportunidades às diferentes entidades regionais, do setor empresarial e do setor público, são, entre outras, dimensões de afirmação que promovem a atração de estudantes.

O Presidente da República António José Seguro pediu recentemente em Vila Nova de Cerveira, mais atenção e investimento em territórios do Interior e da Raia. Também na Covilhã, referiu que o interior não é um fardo, pelo contrário, é um potencial de oportunidades. As palavras do Presidente da República chegam num momento de grande responsabilidade para as Universidades que devem apresentar projetos ambiciosos e estratégicos em total cooperação com as entidades regionais, reclamando conjuntamente investimento e aproveitando, articuladamente, as oportunidades.

Luís Montenegro, no encerramento da Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, anunciou a criação da Universidade de Bragança e Interior Norte, uma decisão política e que vem ao encontro de uma revindicação com mais de 20 anos dos Bringantinos.

Chegados aqui, é o tempo de uma reflexão séria e ambiciosa para a nossa Universidade. De acordo com o novo RJIES, as instituições têm como próximo passo,

a começar já, a eleição de uma Assembleia para a revisão estatutária. Tal é seguramente a melhor oportunidade para uma profunda reflexão sobre a forma como a ambição institucional se traduz na própria identidade da instituição bem como na abrangência territorial.

A ideia de se pensar uma Universidade que sirva toda a Beira Baixa, como o IPCB fez ao longo de 45 anos, tem potencial, é inteligente e feliz, e tem tudo para ser consensual, a nível interno e externo. Mas a ambição de uma maior abrangência que se estenda da Guarda ao Médio Tejo e inclua a zona da Raia e do Pinhal deve ser equacionada. O consórcio Rede Politécnica A23, liderado pelo IPCB desde 2020 e com os Institutos Politécnicos da Guarda e Tomar integrados, revelou-se eficiente e eficaz, e pode ser o mote para a construção de algo mais estruturado e ambicioso como a criação de uma Federação ou Aliança de Universidades enquanto estrutura de cooperação que une várias instituições sob um órgão central partilhado, com objetivo de obter maior relevância nacional e internacional e emitir diplomas conjuntos, preservando a autonomia individual, mas tendo um propósito coletivo. E a nossa Universidade pode sair reforçada face à sua capacidade e centralidade, bem como a cidade de Castelo Branco, capaz de liderar e agregar um território mais vasto.

A Assembleia responsável pela revisão estatutária e o Conselho Geral da Universidade assumem agora uma enorme responsabilidade exigindo-se uma reflexão muito cuidada sobre duas relevantes questões: a designação da Universidade; a estratégia de abrangência regional. Quanto à primeira, assumindo que os nomes também exprimem ambição, e tratando-se de uma Universidade que se assume como instituição regional, uma designação mais abrangente e identitária, com referência a Castelo Branco e à Beira Baixa ou ao Interior Centro, por exemplo, pode ajudar essa mesma região a ganhar identidade, dimensão e capacidade de afirmação. Quanto à segunda, uma instituição que se assuma como o catalisador do desenvolvimento e afirmação de uma vasta e abrangente região, assumindo a liderança de uma aliança para a cooperação estratégica entre Universidades, estará certamente no caminho certo.

* Professor Coordenador, Presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco entre 2018 e 2026

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