Decidiu o Executivo Municipal, por proposta do Sempre Por Todos (PSD e CDS), em reunião do dia 23/03/2026, com o propósito de homenagear aquele autarca que presidiu aos destinos do concelho de Castelo Branco, entre os anos de 1979 e 1997.
Nada tenho contra as homenagens, nem quanto à forma em que são traduzidas, desde que baseadas em critérios objectivos e inteligíveis para a generalidade dos cidadãos. É uma prática compreensível, reconhecer aqueles, que ao longo do seu percurso de vida em qualquer momento, por razões de natureza política, social, cultural, desportiva, profissional ou outra, contribuir para a melhoria da qualidade de vida da comunidade em que os homenageados estão inseridos.
Este reconhecimento deve ser inequívoco e entendível por essa mesma comunidade, devendo, por conseguinte, constituir um exemplo e uma referência para todos.
Caso contrário, as homenagens correrão o risco de ser banalizadas, o que certamente desmerecerão os homenageados e descredibilizarão os homenageantes.
Daí que qualquer decisão deste tipo deva ser objecto de muita ponderação e os seus fundamentos devem ser precisos e verdadeiros.
Bem sei que muitas das vezes quem tem o poder de propor e/ou decidir, é motivado por razões de natureza emocional, ideológica e até clubística, ou outra, nem sempre a lucidez é a mais clarividente e a precipitação acaba sempre por nos trair.
Estou certo que a coligação Sempre por Todos, em particular o PSD, tinha, nas suas perspetivas razões, outras, para homenagear aquela personalidade, mas a razão enunciada e citada pelo Semanário “Reconquista” (26 março 2026, p. 6) que a seguir se transcreve: “A proposta de homenagear o social-democrata … partiu da coligação Sempre por Todos (PSD-CDS), para quem Vila Franca teve um papel determinante na criação, expansão e dinamização da chamada área de localização empresarial.”
Ora, é este fundamento que não cola com a realidade, pretende ignorar a iniciativa de outros que foram, isso sim, determinantes para a criação da zona industrial, propondo-se, assim os proponentes e todos os que decidiram, consciente ou inconscientemente, homenagear César Vila Franca por via da atribuição do seu nome à chamada Zona Industrial, reescrever a história do concelho.
Perante isto, impõe-se, pelo menos da minha parte, partilhar com os leitores e os munícipes o processo da criação e expansão da chamada, hoje, Área de Localização Empresarial de Castelo Branco (ALECB).
Recuamos a 1973. Em julho deste ano, o Executivo Municipal de Castelo Branco era presidido por Manuel da Silva Castelo Branco e foi este que comprou os primeiros 260 hectares, por 13.000.000$00 (treze milhões de escudos), provenientes da venda do Hotel de Turismo, propriedade do município e que correspondem, grosso modo, à chamada zona industrial e à zona de lazer.
Digamos que Manuel da Silva Castelo Branco e o seu executivo foram, à época, os grandes visionários quanto ao desenvolvimento futuro do concelho.
Mais tarde, em Setembro de 1979, é adquirido, pelo Executivo de Armindo Ramos, o Couto da Talagueira.
Das últimas medidas dos mandatos de Armindo Ramos (Comissão Administrativa entre 1974 e 1976 e eleito para o mandato de 1976 e 1979), foi a abertura de arruamentos e o contrato do projeto de infraestruturas de eletricidade da Zona Industrial, a 6 de dezembro de 1979, com um gabinete de estudos e projetos, de Lisboa.
Sucedera a Armindo Ramos, César Augusto Vila Franca que fora eleito Presidente da Câmara, pelo PSD, a 16 de dezembro de 1979 e se mantivera até 1997, ano em que fora eleito Joaquim Morão, pelo PS.
De facto, são dos Executivos de César Vila Franca, as assinaturas dos contratos de venda dos terrenos para a instalação do Centro de Formação Profissional e da PROGURTES, Produtora de Iogurtes, Lda.
São ainda do final da década de oitenta, a Cablesa, a Bitzer e a Arox.
Reconheça-se que relativamente à Cablesa, a construção dos pavilhões foi da inteira responsabilidade do executivo liderado por César Vila Franca. Relativamente à Zona Industrial, julgo ser esta a iniciativa mais relevante dos mandatos de César Vila Franca.
Devo sublinhar que, na consulta da informação disponível sobre este assunto, não consegui identificar a aquisição, por parte de César Vila Franca, de qualquer parcela de terreno para a Zona Industrial.
É já durante o mandato do Partido Socialista, iniciado em janeiro de 1998, que a Zona Industrial é objeto de significativa expansão, tendo sido adquiridos, em março de 1999, 122,4 hectares, por 85.000.000$00 (oitenta e cinco milhões de escudos).
De notar que foram ainda adquiridos, pelos executivos do PS, mais de 6 hectares à família Vaz Preto, situados atrás da Bitzer, e que permitiram a ampliação da rua N e a disponibilização de mais 17 lotes.
Se é verdade que César Vila Franca, durante os seus mandatos, vendeu 125 lotes para a instalação de empresas, nos mandatos seguintes, até 2013, na liderança do PS, para além da aquisição dos cerca de 130 hectares, das infraestruturas, arruamentos, etc, foram cedidos a empresas 145 lotes. E, com a aquisição do pavilhão da Hormigo, Lda. no início deste século, garantiu-se que a então DELPHI se mantivesse e expandisse em Castelo Branco, não se deslocalizando para a Guarda.
Não devemos ignorar que a aquisição inicial dos terrenos, em 1973, por Manuel da Silva Castelo Branco, para a instalação da Zona Industrial e, mais tarde, pela Câmara liderada pelo Partido Socialista, em 1999, para a sua ampliação, foram decisivas para o desenvolvimento económico do concelho e para a alteração da sua base produtiva, reforçando-se, assim, as actividades da indústria, do comércio e dos serviços.
Face ao exposto, julgo ser prudente, que qualquer reconhecimento público, deve ser objecto de uma reflexão e ponderação aturadas, objetivamente fundamentadas, sob pena de se gerarem na opinião pública, equívocos desnecessários.
Na minha opinião, a precipitação da iniciativa tomada quanto a César Vila Franca, traz-nos à memória muitas das razões que levaram o Partido Socialista de Castelo Branco, ao longo dos anos, a opor-se a muitas das medidas tomadas pelos executivos de César Vila Franca, que resultaram no reconhecido caos urbanístico, o chamado “piso a mais”, na degradação espaços públicos, na tentativa de venda dos SMAS, no colossal endividamento do município, entre outros.
A bem do rigor, da seriedade e honestidade, histórica e política, não se pode permitir esta tentativa de revisionismo. A deliberação do Executivo Municipal deve ser revertida.
Podem incluir Joaquim Mourão.