Gosto muito do verbo voltar. Às vezes não volto e fico de mal comigo próprio. Por exemplo, fico doído por não poder voltar à infância de ir atrás da Volta a Portugal em bicicleta. Ir em grupo para a antiga estrada nacional, muito antes de Cebolais de Cima, e esperar a passagem dos ciclistas. Era uma das nossas festas. Não nos interessava a meta - um matagal de gente que tapava o que queríamos. Seguir um contrarrelógio individual e assistir ao momento fatal em que o camisola amarela, ali mesmo na nossa frente, deixa de pedalar, pneu furado e bicicleta a não querer continuar. Esvaído pela impotência, o seu olhar nunca mais saiu de mim. Garotos de 10-12 anos, ficámos paralisados frente as dores da frustração. Quando o carro de apoio chega, a azáfama para lhe resolver o problema, não apaga a desilusão. Há azares que não têm volta a dar, perante um sonho que se desmorona. Ficava como lição para as voltas e reviravoltas que a vida traria.
A palavra volta pode ser nome de pessoa. Aprendi-o na faculdade: Alessandro Volta (1745-1827). Nasceu em Como, ducado de Milão, e foi um pioneiro da eletricidade. Inventou a pilha voltaica e descobriu o metano, um gás (CH4) com importante efeito de estufa, efeito ainda ignorado no tempo e que hoje está em crescimento acelerado. Voltagem e volt são vocábulos que ficámos a dever a este físico e químico.
Também recordo “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, de Júlio Verne (1828-1905). Phileas Fogg, um inglês rico e enigmático, afirma no clube que a perseguição ao ladrão do Banco de Inglaterra, recentemente ocorrido, está votada ao fracasso, por causa dos avanços tecnológicos da época. Em 1872, garante que qualquer um será capaz de dar uma volta ao mundo em apenas 80 dias. Ninguém acredita e, desafiado, aí vai ele. Consegue ganhar a aposta no último toque do sino.
Estou aqui às voltas com a palavra volta numa conversa que parece não ter destino. Mas tem. É que nunca me passou pela cabeça mais esta proeza do deus dinheiro em que a palavra volta irrompe dando nome a um “Sistema de Depósito com Reembolso (SDR)”.
Isto é, “Programa Volta: dás uma garrafa de plástico ou de lata e recebes 10 cêntimos”, reza a publicidade enganosa. Realmente enganosa: não recebo 10 cêntimos; restituem-me os 10 cêntimos que tinha desembolsado. E se não tiver qualquer deformação, pois a máquina coletora não suporta embalagens minimamente amolgadas e rejeita. Além disso, terei de sustentar a preocupação de armazenar e deslocar-me ao local onde as possa depositar. Depósito que, em geral, não se encontra ao virar da esquina, nem num café das redondezas.
Leio na imprensa que “mais de 720 milhões de garrafas de plástico são usadas por ano em Portugal” e não consigo os mesmos dados para as embalagens de metal. O Sistema anuncia que a taxa de recolha, até agora, é de 38% e quer atingir, em prazo desconhecido, 70 a 90%. Com a taxa atual aplicada apenas a garrafas, o “Volta” obtém uma receita anual superior a 4,5 milhões de euros proveniente de embalagens compradas e não entregues ou deterioradas.
Não souberam resolver a maré cheia de plásticos e querem fazer crer que estão a dar-lhe a volta através de um grande negócio; à nossa custa. E sem porta de saída.
A palavra volta também me faz recordar um escrito que há dezenas de anos apareceu nas paredes do hospital psiquiátrico Júlio de Matos, em Lisboa, e deu a volta ao país: ministro Fulano de Tal (não identifico) “estás perdoado. Volta!” Isto tem de ser levado com humor; às vezes macabro. É melhor ir dar uma volta.