A dita “rentrée” que assinalava a reabertura das aulas em setembro, estendeu o seu significado para assinalar, após as férias, também no nosso país, a reentrada do ano político. Podíamos ter aportuguesado, como fizemos com bicicleta, entre tantos e tantos vocábulos, mas, contrariado, salve-se este, entre o cortejo de anglicismos que poluem com vísceras de plástico em muito do que se mexe no falar televisivo.
Mas, setembro chegou e as “rentrées” já se foram. Usam-nas e deitam-nas fora. Espalmados em areais, até agosto lhes serve para reentrar, reabrir, recomeçar - tanto faz - torrando ideias, táticas e costumes. Tal como guerras, petróleo, privatizações, contrarreformas, também cheiram a mofo. Que esperar? E que havemos de fazer? Em fase de alterações climáticas devidas ao finalmente reconhecido, mas não combatido, aquecimento global, nem no comportamento da atmosfera podemos confiar. Hoje por hoje, refugio-me em casas que a poesia sempre abre.
Setembro distancia, cria intervalos por onde o verão se pode escapulir. Segundo José Agostinho Baptista, setembro é “de recomeços”. Diz a sua poesia: “bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima. / Doce e cruel é setembro. / Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca”. Por seu lado, Eugénio de Andrade elege “as tardes de Setembro, / quando a luz é perfeita e mais doirada, / e há uma fonte crescendo no silêncio / da boca mais sombria e mais fechada”.
“Agora” [em setembro], escreveu Vasco Graça Moura, “o outono chega, nos seus plácidos / meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa / um cabaz de maçãs por sobre a vedação: / redondas, verdes, o seu perfume vai / dentro de quinze dias ser mais forte. // a noite cai mais cedo e apetece / guardar certos vermelhos da folhagem / e amarelos e castanhos nas ladeiras / de setembro. a rádio fala no tempo variável / que vem aí dentro de dias. // uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo / os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas. / aproveita-se o outono no macio / enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo. / devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.”
Como mês de saída do verão, ao contrário de maio que é de entrada (o adagiário também lhe chama “o maio do outono”) é de esperar que se possam cumprir os desígnios do clima de décadas passadas: “ou seca as fontes ou leva açudes e pontes”. Embora com cuidado; seca e calor extremo podem ser o diabo na saúde pública e nas florestas. Se levar açudes e pontes, as inundações provenientes de nuvens de grande desenvolvimento vertical podem também ter efeitos danosos.
António Salvado evoca o “tumulto vibrante do trovão” de quem “espera que o relâmpago / lhe cegue os olhos de alucinação”; e também o “arco-íris pelo céu vogando”; de “nuvens brancas, errantes, / a liberdade livre de opressões” com “aves [que] traçam / caprichos azulados pelo ar”. Mesmo se imerso em “brumas dentro do corpo”.
Se os fogos grassarem, então, como diz o ditado, “serra queimada, terra alagada”. E, como devíamos estar fartos de saber, “o fogo e a água são maus amos e bons criados”. Sabemos como o escoamento das águas pluviais se processa por vias incomuns em situações meteorológicas que originam aguaceiros intensos.
E, já que me calhou reler “A Ilustre Casa de Ramires”, de Eça de Queirós, cito uma passagem em que o autor celebra “uma manhã dos fins de Setembro, macia, lustrosa e fina: nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul: e o sol já pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outonal”. Assim seja.
*Meteorologista