“E há muita gente que hoje adere às ideias antidemocráticas não por medo do presente ou do futuro… (…) Porque do que neste momento precisamos é de quem nos fale das infinitas possibilidades benignas à nossa frente. Um grande filósofo ou uma grande cientista da nova geração, alguém que nos explique com otimismo que é possível às democracias orientarem a disrupção científica e tecnológica para graus mais elevados de felicidade individual e coletiva.” (Francisco Mendes da Silva, PÚBLICO, 13-06-25).
Não creio que hoje possamos ilibar da desconfiança na democracia os “medos do presente”, nem que não sejam eles que patrocinam muitos dos nossos receios em relação ao futuro. Como não os creio superáveis pela simples intenção de as “democracias orientarem a disrupção científica e tecnológica para graus mais elevados de felicidade individual e coletiva”.
De resto, nem percebo que assim se possa compreender que o sistema democrático se tenha ‘degradado’, num contexto, como o nosso, de inusitada corrida pela “utilitária” satisfação da “felicidade individual”. A não ser refutando-lhe um colateral pressuposto: de que é do somatório desses percursos que se há de obter a “felicidade coletiva”.
Pressuposto que até nos evitaria a redundância (individual/coletivo) já que assenta na discreta, mas discutível, ideia de que o ‘todo’ não é mais do que uma soma das suas partes. Ideia perfeitamente contextualizável, mas que ganhou particular transparência com a conhecida proclamação de que “a sociedade não existe” (Margareth Tatcher, 1987).
Não se trata, portanto, de uma questão semântica, mas da ousada debilitação do ‘social’ que o séc. XVIII inaugurou no seu empenho pela emancipação da forma corporativa e das suas sequelas políticas e sociais. Com o lúcido e prestimoso contributo do método democrático que, contudo, o não preveniu do maior desastre que as democracias liberais já viveram (Questão Social). E a que sobreviveram remoçando a democracia com um, agora envergonhado, ‘fator social’ que só alastrou à míngua do que se perdeu.
Processo imparável que, por conveniente resiliência, até pode anular o ‘individuo reivindicativo’ que a democracia nos legou e, interpelado pelo chamado “capitalismo asiático”, ‘desperdiçá-la’, seja embora pelas ‘fraternas’ via Trump ou via Milei.
Com uma tal destreza que não só ilude o papel do neoliberalismo “no estado a que isto chegou”, como, omitindo-o, o iliba da “disrupção científica e tecnológica” que se pretende superar. Ainda que, como opção democrática, a nossa “felicidade” lhe tenha escapado, enquanto durou o ‘determínio de’ que “o que tem de ser tem muita força”. Remetendo o “precisado” repto a quem nos “fale das infinitas possibilidades benignas à nossa frente” para tão grande mudez que ela própria ‘fala’ na indigência das ambições políticas que se lhe opõem.
É que, mesmo compelidos a ir a Meca, podemos ainda ‘preferir’ ir de camelo por Marrocos ou de avião pelo Dubai!