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Crónica: Debita Nostra CCLXXIII

Luís Costa - 13/11/2025 - 9:01

“Não há nada que pareça ser capaz de contrariar a inclinação do mundo para a direita mais radical e as eleições de quarta-feira, nos Países Baixos, deverão confirmar o estado do mundo. Geert Wilders lidera as sondagens e deverá conduzir o seu partido de extrema-direita a mais uma vitória(?). Há, no entanto, exceções. Se só servem para confirmar a regra, ou são possibilidades reais de mudança, é motivo para interrogação. Pelo menos para uma esquerda a quem escasseiam ideias de como representar a esperança de mudança.” (David Pontes, Público, Editorial 27-10-25).

 

O propósito de destacar paralelismos entre a atual crise e a dos anos 30 do século passado nunca passou por ignorar uma outra constatação: a de que a História se não repete, já que mais não seja porque os seus vividos contextos não são replicáveis (DEBITA NOSTRA CCLXX a CCLXXII).

O que nos obriga a uma outra reflexão sobre o “modo” que aqui nos trouxe, tendo em conta as particularidades que o “tempo” nele introduziu. E a considerar, por exemplo, quanto então fluíam “ideias de como representar a esperança de mudança” que, contra os desmandos do domínio liberal, lhe sugeriam alternativas políticas. Ao invés do atual fatalismo que se balanceia entre os mais devotos ou envergonhados assomos de liberalismo e uma reativa “inclinação do mundo para a direita mais radical”.

Suscitando, porém, vastas preocupações que se não quedam pela “esquerda a quem escasseiam ideias”, e que, como em Francisco Mendes da Silva (PÚBLICO, 13-06-25), anseiam por “um grande filósofo ou uma grande cientista” que “nos fale das infinitas possibilidades benignas à nossa frente” (DEBITA NOSTRA CCLXVII).

Mas também nos dizem, como em Timothy Snyder (2017), que tal balanceio entre a política “da inevitabilidade” e a “da eternidade” (DEBITA NOSTRA CCLXVIII e CCLXIX) nos não serve, desafiando a esquerda à superação da sua usual autocomplacência. Em particular quando, na autocrítica dos respetivos desaires, se não consegue elevar sobre os patamares da culpa alheia.

Ora, parece-me que este ‘arrumo’ de Snyder entre uma “inevitabilidade”, onde a força do que tem de ser económico “passou a servir como uma espécie de muleta do nosso discurso político no século XXI”; e uma “eternidade”, em que a “sedução de um passado mitificado”, “pátio repleto de monumentos irreconhecíveis”, define a nação “pelas suas virtudes inerentes” e não “pelas potencialidades do seu futuro”, também lhe deixam um bom “motivo para interrogação”.

Nomeadamente, no sentido de se questionar em quanto lhe cabe de “eternidade” na seduzida fixação pelo século XIX e a sua determinante capacidade de nos prescrever o futuro; ou de “inevitabilidade” na mesma determinação com que define o caminho por onde, cedo ou tarde, teremos de passar.

Ou ainda, em “como representar a esperança” universal, quando se reserva o exclusivo dom de a poder concretizar?!

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