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Crónica: Debita nostra CCXCI

Luís Costa - 23/07/2026 - 9:01

“Embora muitas das condições históricas descritas por Leão XIII tenham mudado, permanecem de grande atualidade pelo menos dois de seus contributos: o primado do trabalho humano sobre qualquer tipo de lógica puramente produtiva ou financeira – com a consequente atenção às pessoas e famílias mais expostas à exploração –, e o vínculo indissociável entre o anúncio evangélico e a busca de uma ordem social mais justa.” (Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, 2026).
Agora que, com a rapidez que é sinal dos tempos, este texto desapareceu das parangonas, importa tentar refleti-lo, correspondendo ao seu apelo “a todos os homens e mulheres de boa vontade” para que não receiem “sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo”.
Começando por dizer que, pela própria forma como se nos apresenta (Introdução), ele não pretende ser um tratado sobre Inteligência Artificial (IA), mas sobre a “Doutrina Social da Igreja” (DSI). No seu declarado propósito de “interpretar as tendências do nosso tempo, em particular os progressos da técnica”, sem esquecer que, embora o contexto tenha mudado, persiste, “pelo menos”, a atualidade daqueles dois contributos de Leão XIII.
É sobre a DSI que o texto irá discorrer, já quando nos situa nesta sua “dinâmica histórica”, já quando recorda os seus “fundamentos e princípios”. Alertando-nos, em conformidade, para os perigos de que se reveste o uso da IA, nomeadamente perante narrativas que a enquadram numa perspetiva transumanista e pós-humanista. 
Como é da DSI que parte quando nos previne das possíveis consequências de tal (ab)uso: na comunicação e educação, nas relações de trabalho, nos conflitos (guerra), em geral.
E é na DSI que a sua Introdução se esgota, ainda quando nos fala, citando Francisco, do “domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro” que a IA confere a quem “detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar”. Perguntando-nos: “para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?”. 
Concluindo que teremos de optar perante a alternativa que nos é sugerida por duas referências bíblicas: a do “caminho de Neemias”, no retorno da Babilónia, assente “no trabalho conjunto” para a reconstrução de Jerusalém, e a da edificação da Torre de Babel. Renegando a “síndrome de Babel”, ou seja, “a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única (…) dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa”.
Parece-me, assim, inevitável, que, mesmo concedendo alguma complementaridade a dois dos pressupostos sobre a dinâmica do crescimento das sociedades, o da competição e o da colaboração, se não iluda o respetivo desequilíbrio (DEBITA NOSTRA, CCXLII).
E como, sustendo-se de um premeditado ‘culto da individualidade’, ele espelha a presente adição à “síndrome de Babel”.

 

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