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Digressões Interiores: Nos meus olhos, ainda o eclipse…

João Lourenço Roque - 10/09/2026 - 16:30

Logo que Agosto assomou encheu-se a aldeia de "estrangeiros" de diversas origens, idades e condições, ocupando todos os "hotéis" e alojamentos locais do centro histórico.

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Logo que Agosto assomou encheu-se a aldeia de "estrangeiros" de diversas origens, idades e condições, ocupando todos os "hotéis" e alojamentos locais do centro histórico. Crianças e idosos, homens e mulheres. Mulheres lindas que espalhavam beleza e simpatia. Nada de novo, num mês que, apesar de tão mudado, aparenta continuar igual. Vieram por uma ou duas semanas e por razões comuns ou distintas. Alguns terão vindo avivar memórias e saudades, "ressuscitar" sinais e lugares de verão, celebrar os tempos das férias prolongadas e felizes em casa dos avós. Tempos de brincadeiras e aventuras sem fim! Tempos de juventude e de comunhão fraterna, em que todos eram e se sentiam mais primos e mais irmãos! Outros chamados pela tentação das praias fluviais ou das conversas matinais e nocturnas. Todos - ou quase todos - movidos pela esperança de viverem aqui um momento único em toda a sua vida, na observação do eclipse solar que, segundo correu nas redes sociais, alcançaria nestas latitudes o nível máximo ou perto disso. Também eu, que desde há muito "viajo" nos mistérios dos céus e da terra, participei nessa hora de magia e de excitação colectiva, juntando-me à multidão que enchia as ruas ao final da tarde do dia 12 de Agosto. Por sorte ou mero acaso tinha garantido os óculos indispensáveis, quase à última da hora, na farmácia Ferrer em Castelo Branco. Sorte minha e de muitos dos "turistas" desprevenidos a quem os emprestei, rodando de minuto a minuto a vez de nos tornarmos astrónomos e de nos sentirmos mais humanos e mais divinos na contemplação dos segredos, dos medos e fascínios do universo. Em poucos segundos o dia se fez noite. Em poucos segundos a noite voltou a ser dia. Estavas em Coimbra ou não sei onde, mais senti a tua falta naquele momento que ninguém tornará a viver. Se eu tivesse jeito ou inclinação para o negócio, teria feito bom dinheiro em cobranças pelo empréstimo dos óculos. Guardei-os, com pena de os deitar fora. Talvez na ilusão ou na esperança de que alguém os encontre e aproveite daqui a mais de 100 anos. Ou se interrogue sobre tão estranho achado...Fiquei na aldeia até à debandada dos veraneantes. Habituado como estou ao sossego e ao silêncio - apenas quebrado pelas vozes de quem mais de perto me chama ou pelo estridente cantar das cigarras - houve alturas em que me afastava ou escondia, perturbado com tamanha barulheira. Ali fiquei e fui ficando, acorrentado às minhas sombras, tristezas e recordações. É sempre assim em Agosto, gente e mais gente nas ruas. Vidas passadas, vidas futuras! Sonhos caídos no chão, sonhos levantados nas mãos e na alma! Gente conhecida e desconhecida, gente amiga quase sempre. Gente que sabe dar e receber. De boa mente, dei melancias a muitos deles.

Recordo para sempre o eclipse e antes dele aquela primeira semana de Agosto em que tão unidos e cúmplices aqui estivemos. Não adianta esperar pelo próximo eclipse mas, quem sabe, talvez valha a pena esperar pelo próximo verão se novamente nos encontrarmos em qualquer ponto da nossa história e da nossa paixão.

Em diversas ocasiões me canso e aborreço com a vida na aldeia. Então fujo daqui até Coimbra ou Castelo Branco. Ou viajo pelos territórios e encantos da freguesia, parando e espairecendo em tantos sítios, caminhos e encontros. Ora na Lomba Chã, ora nos Vilares e em São Domingos, ora na vila de Sarzedas. Sem esquecer tantos outros lugares, especialmente o Carrascal aonde, como bem sabes, tantas vezes vou a sessões de fisioterapia, aliviando alguns dos meus males graças aos dons e à sabedoria da D. Delfina Dias, num ambiente de grande relaxamento físico e espiritual. Falta-nos muita coisa nestes territórios do interior. Faltam-nos pessoas e imaginação, tempo e palavras. Mesmo assim por aqui me demoro e existo, sozinho ou acompanhado, nos "paraísos" descobertos ou escondidos da freguesia de Sarzedas. Espero que Donald Trump não se lembre de os declarar "território dos Estados Unidos".

Escrevi esta crónica em dia de chuva e ventania perto dos finais de Agosto. Mês de férias, de namoros e surpresas, mês de todas as festas e aparições. Encontros e desencontros. Espero por ti no resto do Verão, à beira do Outono, em tons e sinais de doçura e melancolia… Nos meus olhos, ainda o eclipse. Tantas sombras, tantos eclipses na minha vida…

 

 

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