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Crónica: Debita nostra CCXCIV

Luís Costa - 03/09/2026 - 9:01

“Esta perspetiva deve ser enquadrada numa alargada visão sobre as dinâmicas globais. A riqueza mundial cresceu em termos absolutos, mas intensificou-se a concentração nas mãos de poucos e aumentaram os desequilíbrios, tanto entre países como no interior dum mesmo país: ‘Poucos possuem demais e muitos possuem pouco, esta é a lógica de hoje’.” (Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, 2026).
A evocação da “economia duvidosa” das “ideias simplistas do escorrimento”, enquanto, nos anos 50/60, “muito mais elevadas” taxas de imposto levaram a um “crescimento mais rápido para as democracias de elevado rendimento” (Martin Wolf, 2023), levanta outra questão. A do seu enquadramento “numa alargada visão sobre as dinâmicas globais” onde um “slogan político” se pode revelar justificativo, mas enviesado, critério de “distribuição” (DEBITA NOSTRA CCXCIII).
Ou seja, como, “revelando-se frequentemente ilusórias as teorias que prometem um automático e geral bem-estar”, exige que “em vez de aguardar os benefícios dum crescimento que ‘por último’ também recairá sobre os pobres, sejam necessárias escolhas que, desde o seu início, tornem o crescimento inclusivo” (Magnifica Humanitas).
Já por aqui se falou da conveniência de que o dinheiro se cruze com o sistema produtivo, para que mantenha valor (DEBITA NOSTRA CCLXXXVIII), e é sabido como a capacidade de consumo se tornou um incontornável fator de equilíbrio económico.
Por outro lado, nunca, até hoje, a questão do sustento dos trabalhadores se pôde desligar da viabilidade de qualquer processo produtivo, mesmo em sistemas sociais e políticos que não ‘viveram’ de uma especial consideração pelo trabalho.
Assim com o sistema esclavagista, sem que eu deixe de crer que, alguma vez, tenham faltado os elogios ao estatuto que nele podiam adquirir certos escravos e a como todos eles, pelo menos, aí garantiam alimento e reprodução.  Argumento muito visto a favor de certas situações coloniais, nomeadamente, a propósito do sistema de apartheid sul-africano.
Não será, portanto, da inevitável “distribuição” que hoje se trata, mas do modo como nela se hão de “aguardar os benefícios dum crescimento”, qual o caso do pedinte que nunca conseguia comida por se ter resignado a ‘gostar’ de carapaus do dia anterior (DEBITA NOSTRA CI). E é aqui que importa relegar o mais carregado traço destes exemplos para melhor relevar a insinuante conveniência das ditas “ideias simplistas do escorrimento”. 
Como se a universal subida da escolaridade fosse uma dádiva da crescente aposta em graus académicos mais elevados, ou encolhesse o leque de uma desigual escolarização. Ignorando que é exatamente a latente demanda da distinção social através da escola, pela raridade, que comanda tão insistente procura.
Confundindo-se, na intocável, mas aparente, cedência à espontânea generosidade em detrimento de uma recalcada competição, a global subida dos níveis de vida e o favor desta “intensa concentração” de riqueza.  
“Tendo cada escolha (por mais implícita, as respetivas) consequências morais” (Magnifica Humanitas) …

 

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