Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Crónica: Debita nostra CCXCV

Luís Costa - 17/09/2026 - 9:01

… “‘a mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade’. É uma ilusão pensar que para contribuir ao bem de todos basta procurar o próprio progresso, sem ter de se preocupar realmente com os outros. Esta visão ignora o valor peculiar do bem comum: ele é fruto da ‘interdependência’ geradora duma rede de bem social que se difunde e repercute na vida das pessoas.” (Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, 2026).

A constatação de se “revelarem frequentemente ilusórias as teorias que prometem um automático e geral bem-estar” (Magnifica Humanitas), no seu apregoado “escorrimento” da criação de riqueza para a respetiva acessibilidade, é verdadeiramente interpelante.

Nem tanto pela reversa “concentração” dessa mesma riqueza, e consequente ‘benefício’, (DEBITA NOSTRA, CCXCIII e CCXCIV), mas pelo que implica de persistência, num contexto em que teorias “frequentemente ilusórias” mereceriam melhor rejeição.

O que significa que não se trata aqui apenas de uma simples conveniência, mas da efetiva capacidade de a fazer passar por (‘classificar’ como) normal. Ou seja, de nos colocar no cerne das relações de “poder”, e da sua força estruturante das sociedades (Max Weber), que a democracia se propõe regular.

Um campo em que “o realismo autêntico não renuncia a mudar o mundo: começa por ver com clareza os interesses, os medos, os vínculos e as relações de força, precisamente para calcular o que é possível alcançar e com que mudanças” (Magnifica Humanitas).

Evitando, nesta azáfama, temerárias an(mu)danças, mas também a complacente inércia de as contornar. Desde logo, ao ocultar, no destaque dado às “catastróficas falhas” de quem pretendeu mudar o mundo, as ‘falhas catastróficas’ de quem tal remete para um outro, reservando-se o ‘dom’ de os delimitar (J. M. Tavares, PÚBLICO, 06-08-26). O dito poder de ‘classificar’, agora na muito pouco original, e tendencialmente iconoclástica, ‘(a)versão’ de uma “versão infantil do cristianismo”.

Sendo então que, ao focar “os interesses, os medos, os vínculos e as relações de força”, me parece não se poder ‘apagar’ onde, por mais esquivo, nos tem levado o “ilusório” postulado de que para contribuir ao bem de todos basta procurar o próprio progresso”. E como ele se foi materializando em “falhas” como a do “infortúnio e miséria imerecida” de milhões de pessoas, por “influência da riqueza nas mãos de um pequeno número, ao lado da indigência da multidão” (Rerum Novarum, 1891).

Mas também o seu umbilical parentesco com as modernas “teorias do escorrimento”. No que lhes oferece de ‘colo’ e de exemplo de como poderem ser (classificadas de) normais, ou se ‘naturalizarem’. Usarem da possibilidade de se camuflar na natureza, para que mais facilmente se despercebam e ignorem.

Mesmo que pareça redundante a denúncia de que “poucos possuem demais e muitos possuem pouco, esta é a lógica de hoje” (Magnifica Humanitas).

COMENTÁRIOS