Quando me aposentei, propus à direção da Usalbi a criação de uma disciplina na minha área de formação: “Brincar com números, jogos e problemas”. Justifiquei-a com uma ideia simples: o desenvolvimento de atividades mentais ajuda a retardar a perda de capacidades cognitivas associadas ao envelhecimento. A reaprendizagem da matemática, num sentido mais recreativo, mas não menos reflexivo, pode, por isso, funcionar como um estímulo intelectual importante, contribuindo para uma melhor qualidade de vida, tornando as pessoas mais ativas e motivadas.
Dois anos depois, essa experiência revelou-me uma lição de vida presente em cada aluno da Usalbi. Uma verdadeira universidade, no sentido mais amplo da palavra. Se as universidades clássicas atribuem diplomas necessários ao mundo do trabalho, instituições como a Usalbi dão, sobretudo, sentido à vida.
A USALBI – Universidade Sénior Albicastrense, criada em 2004, tornou-se uma das mais relevantes iniciativas sociais do concelho no domínio do envelhecimento ativo. Muito mais do que um espaço de aulas, é um centro de aprendizagem, convívio e participação comunitária. Funciona como um polo cultural e humano assente em três pilares fundamentais: aprendizagem ao longo da vida, envelhecimento ativo e combate ao isolamento.
Com cerca de 1600 alunos, 39 disciplinas, 40 professores e o trabalho discreto, mas essencial, de cinco pessoas que coordenam toda a estrutura administrativa e de gestão, a Usalbi é hoje uma das maiores comunidades educativas locais. Está presente em todas as freguesias do concelho de Castelo Branco, promovendo coesão territorial e dinamizando a vida social e cultural local e concelhia.
A oferta é vasta: línguas, matemática, informática, literatura, saúde, jornalismo, património cultural, música, teatro, artes, atividades físicas e projetos ligados à cidadania, sustentabilidade e bem-estar. Há ainda visitas de estudo, intercâmbios entre os diferentes polos e entre outras instituições semelhantes, palestras, exposições, convívios desportivos e atividades intergeracionais.
Mas o mais importante talvez seja o espírito de comunidade. Professores voluntários e alunos partilham saberes, histórias, emoções e experiências. Na Usalbi, a idade, as habilitações académicas ou o estatuto social perdem importância perante a vontade de continuar a aprender e a participar.
É impossível ignorar o papel central que esta instituição desempenha na vida de tantas pessoas. Para muitos, representa combate à solidão, ocupação ativa do tempo, amizade e procura de conhecimento. Como diz um professor da casa, “não se pode ficar em casa, sentado no sofá, senão vamos direitinhos para a loja do Alemão”. Leia-se Alzheimer ou outras formas de demência. Porque envelhecer também é resistir à desistência.
Mas, como já referi muitas vezes ao longo das minhas crónicas, há sempre o outro lado da moeda. Neste caso o estigma de ser “velho” ou de ir para a Usalbi. Disso, falarei no próximo artigo.
PS: Num tempo de ruído e velocidade, o jornal Reconquista permanece desde sempre como lugar de proximidade, memória e confiança. Os meus parabéns pelos seus 81 anos de vida.